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A fila da Caixa, o peão de uniforme e o restaurante caro

Por André Cadaval

Artigo de Opinião

Todo grande projeto no Brasil começa a morrer quando troca a fila da Caixa Econômica Federal por um restaurante caro.
Não é metáfora exagerada. É observação empírica.
Na fila da Caixa, a conversa é concreta.
Ali está o peão com uniforme da firma, o crachá ainda pendurado no pescoço, perguntando se dá para parcelar o fogão, quanto ficam os juros, se sobra algo no fim do mês depois do aluguel. É ali que o Estado existe de verdade — ou deixa de existir.
No restaurante caro, a conversa também é direta, mas em outra língua.
Fala-se de “expectativas do mercado”, “âncora fiscal”, “sinalização correta”. Gravata alinhada, guardanapo no colo, vinho caro na taça. Nenhum deles jamais passou uma manhã inteira esperando senha para ver se consegue crédito para comprar uma geladeira.
O Brasil talvez não tenha apenas um problema econômico. Temos um problema de classe na escuta. Governa-se ouvindo os engravatados da Faria Lima e não o peão de uniforme que sustenta a arrecadação via imposto no consumo.
A inflação, por exemplo. Insistem em dizer que ela é culpa do povo que consome demais. Mas o povo não consome demais — o povo paga caro demais para viver. A inflação brasileira nasce do caminhão preso na estrada esburacada, do aluguel inflado pela especulação, do gás caro, do alimento que viaja mal, caro e intermediado demais. Juros altos não asfaltam estrada, não produzem comida, não constroem casa. Só transferem renda com eficiência matemática.
E aí surge a poupança — palavra envenenada desde 1990. Collor não sequestrou apenas dinheiro; sequestrou a confiança popular no Estado como guardião do pequeno patrimônio. Desde então, toda proposta de fortalecimento da poupança é sabotada pela lembrança traumática, repetida pela mídia hegemônica como advertência eterna: qualquer política pública vira fantasia de confisco. Mas trauma não se cura com silêncio. Cura-se com regra clara, rentabilidade justa e pedagogia política cotidiana.
Se a poupança render acima da inflação, se houver proteção explícita e absoluta, se o povo enxergar que aquele dinheiro financia casa, estrada, saneamento — e não cassino financeiro —, a confiança volta. O povo entende. O povo sempre entendeu. O que ele não aceita é ser tratado como ingênuo.
E aqui entra a educação — talvez a falha mais profunda. Não se trata de ensinar cartão de crédito nem de incentivar consumo. O problema é a ausência total de formação financeira crítica. O que predomina é uma educação bancária, no sentido mais duro do termo: conteúdo para decorar, repetir, passar na prova e esquecer. Uma pedagogia que não forma sujeito, não explica juros, orçamento público, sistema financeiro, nem como o dinheiro circula e quem ganha com isso.
A economia não anda sozinha. Um investimento puxa outro. Habitação gera emprego, que gera renda, que fortalece poupança, que financia mais investimento. Estrada boa barateia alimento. Ferrovia reduz custo estrutural. Indústria absorve mão de obra, reduz o exército de reserva e melhora salários. Serviços só melhoram quando a indústria puxa. O território se reorganiza quando o trabalho se desloca. As periferias respiram quando o centro para de sugar tudo.
Nada disso é utopia. O Brasil já viveu isso — com contradições, autoritarismos e limites, é verdade —, mas viveu. Outros países aprofundaram esse caminho. O que mudou não foi a lógica econômica. Mudou a correlação de forças.
Bancos públicos poderiam ser motores disso tudo. Juros justos, spreads menores, concorrência real. Quando o banco público baixa a taxa, o privado grita — e depois copia. É assim que o jogo funciona. O que se reduz não é a estabilidade; é o lucro extraordinário do rentismo. E é aí que começa a guerra narrativa.
Por isso tantos governos hesitam. É mais confortável conversar com banqueiros e acionistas num restaurante caro do que explicar política econômica para quem está na fila da Caixa. Mas quem governa sem falar com o povo governa apenas no papel. Política que não comunica vira refém de discurso alheio.
Quando foi a última vez que um ministro da Fazenda conversou com o peão de uniforme? Não para foto. Para ouvir. Quantas vezes foi a um sindicato, a um INSS lotado, a uma agência da Caixa onde alguém pede empréstimo para comprar um fogão?
Governar não é evitar conflito. É escolher conflito e explicar por quê.
Sem explicação cotidiana, não há projeto que sobreviva.
No fim, tudo se resolve na linguagem da fila da Caixa:
“Vai melhorar?”
Vai — se alguém decidir sair do restaurante caro e voltar a ouvir quem espera de pé.

Foto de André Cadaval
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