
“Quem casa quer casa”... e um trabalho na Fábrica Rheingantz!
Por Milene de Bon
Crônica
Por volta de 1954, acontecia o casamento de Edelma e Araydes, meus avós maternos. Ambos vivenciavam a expectativa de uma nova vida na cidade de Rio Grande.
“Quem casa quer casa”, já dizia o ditado popular. E essa era a grande preocupação para concretizar o tão desejado matrimônio. "Primeiro a casa", deviam pensar meus avós. Aliás, antes da casa, o trabalho para o sustento da futura família.
Araydes, natural de Jaguarão, morava pertinho da fronteira com o Uruguai e tinha dupla cidadania, herança do pai vindo do país vizinho. Ele foi contratado para trabalhar no Corpo de Bombeiros de Rio Grande — na época, não existiam concursos públicos como atualmente. Foi então que surgiu a oportunidade de realizar o casamento com sua amada Edelma. Ela, que vivia em Arroio Grande (RS) em um terreno cedido pelos patrões de sua mãe, também desejava casar e levar a mãe junto para a nova cidade e para uma casa própria. Após alguns "quase casamentos" na vida de Edelma, meu avô surgiu trazendo novos horizontes.
Na dúvida sobre onde morar, Araydes pensava em locais próximos ao antigo Castelão (atual GB MIX). Entretanto, ainda não havia juntado economia suficiente para um imóvel no centro da cidade. Pensou, então, no bairro mais antigo do estado, apostando na proximidade com o centro e na esperança de que o local um dia se tornasse um “novo centro” de Rio Grande. Comprou uma casa nessa região, perto do novo porto. Havia muitas esperanças ali!
Na mudança para Rio Grande, minha avó já planejava onde trabalhar. Na época, o local mais conhecido para a mão de obra feminina era a Fábrica Rheingantz. Como aponta a pesquisadora Matoso (2019), “a feminização do trabalho industrial têxtil foi um fenômeno internacional comum entre os séculos XIX e XX”. O primeiro emprego de Edelma na cidade coincidiu com um período posterior a uma intensa movimentação política. Em 1950, apenas quatro anos antes do casamento, ocorreu uma manifestação marcante na história das lutas sociais com forte participação feminina. Uma das figuras mais importantes desse movimento operário em Rio Grande foi a tecelã da Rheingantz, Angelina Gonçalves, assassinada pela polícia durante o ato de 1º de maio daquele ano.
Poucos anos depois, na década de 1960, a fábrica vivenciou uma forte crise financeira, decretando falência em 1968. O espaço reabriu em 1970 como Inca Têxtil, seguindo até meados de 1990.
Em meio a esse cenário, minha avó teve quatro gestações. A primeira, de gêmeos, infelizmente não vingou. Na segunda, enfrentou um parto natural muito difícil e com complicações: o bebê estava com o cordão umbilical enrolado no pescoço. Foram alguns minutos sem respirar, o suficiente para trazer sequelas futuras. No crescimento da menina Jânia — batizada assim porque minha avó achava “lindo” o político Jânio Quadros —, as dificuldades de aprendizagem começaram a aparecer. O diagnóstico veio rápido nos primeiros anos de vida: deficiência intelectual. Ao completar 15 anos, surgiram os primeiros “apagões” e um novo diagnóstico: epilepsia.
Eram tempos difíceis. A escola para crianças com necessidades especiais já não conseguia evitar os machucados causados pelas quedas frequentes de Jânia. Por isso, deixar o emprego na fábrica tornou-se inevitável para minha avó. Foi uma despedida dolorosa: ela amava trabalhar, arrumar-se para a rotina e desfrutar do convívio social com as colegas durante a tecelagem.

Foto: Acervo pessoal